domingo, 25 de janeiro de 2009

Brasil Guerreiro

reportagem especial encomendada pelo JW

por Pedro Bialf


Ao raiar do sol acorda o brasileiro. Raça Brasil. Guerreiro. Como fiel escudeiro de sua pátria, liga a TV. Invenção que o coloca em contato com o mundo. Com a China. A China é o mundo.

Há telejornais – programas que chegam à notícia como papa-léguas e a entregam nas mãos do exigente telespectador. Programas heróicos. Mas quem precisa deles? Astuto, o brasileiro sabe que basta o dom da imaginação e da moda para saber a notícia: “Homem / Leproso / Cachorra / Professor / Roxo anda cinco km na contramão de patinete, sofre acidente e mata sete.”. O brasileiro, sábio, prefere o dom da palavra. Programas que lhe ensinam receitas que jamais terá dinheiro para realizar ou que lhe revelam a decadência de celebridades guerreiras.

Passa a manhã. O sol se firma na imensidão azul do céu. Informado de quem não mais reluz, é nas tardes que o brasileiro, honrado, cumpre seu árduo dever: semear o ódio contra times perdedores e planejar novas batalhas sanguinolentas nos estádios, saber tudo das novelas e reality shows antes de assisti-los e rever filmes trash que são pura confusão, diversão e azaração na sua telinha.

A noite cai lentamente. No horário de verão, o milagre da luz é mais duradouro. “Haja mais luz!”, dissera Deus? Deus é brasileiro. “Aja mais luz!”. Ainda no saboroso restaurante da TV, o brasileiro, faminto de saber, abre o variado cardápio noturno – famosos, novelas, ex-famosos, noticiários. “O que vai querer, amo?”, pergunta o sempre atencioso controle remoto, atalho do sofá à cultura de massa. “Jornais? Temos dois tipos: os que gostam de sangue e os que gostam de patins; novelas temos de todos os tipos iguais; hoje, nos caça-celebridades temos: casamento, separação e presidente sem camisa.”.

O brasileiro, sempre insistente, ainda não se satisfaz. Quer algo que o emocione, seduza. Que mostre sua realidade. Nua e crua. Reality Show! É isso que o brasileiro, carnavalesco, quer. Um programa com a cara do país. Um programa em que pessoas que passam os dias com as pernas para o ar tornam-se heróis enquanto o mundo acontece.

Finda-se o dia. O brasileiro, embora exausto, se enche de esperança. Esperança de vida nova. De um Brasil legal, joinha. Um Brasil que vai chegar um dia. Quem sabe numa nave, quem sabe em qualquer loja. Mas que vai chegar.

Antes de desligar a TV, o brasileiro, religioso, ora com o pastor que acaba de lhe pedir apenas um salário máximo. Pede pelo Timão. Pelas vacas da Índia. E dorme. Como uma criança.

Uma criança guerreira.

12 comentários:

  1. Uau, meus tios são heróis e guerreiros!

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  2. Quase um macunaima! Ai..que preguiça! Eis o tipico brasileiro. Esperar por dias melhores, enquanto o tempo de luta passa. Ui...

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  3. Essa versão do Bial à Maisa ficou muito "show". O texto ficou muito bom, com destaque para a China. Adorei a metáfora do Brasil criança.

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  4. Lucas, vc gostou de uma metáfora do... do... Bialf?!?!?! hahahahaha "Tá tudo bem aí?"

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  5. Esqueci de colocar mais: Versão Bial à Maisa+Pernalonga.

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  6. notei o dentinho depois do comentário de Lucas.
    Estava cor de dor de Biaul, por isso.

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